
De grão escuro, composição diferenciada e presença já consolidada em mercados especializados, o arroz negro ocupa espaço de destaque na gastronomia de alta qualidade, especialmente em preparações como risotos e outros pratos que valorizam ingredientes diferenciados. No Noroeste Fluminense, seu cultivo encontra apoio técnico e condições favoráveis, favorecendo o crescimento da demanda, criando novas oportunidades e, ao mesmo tempo, desafios para quem produz.
O cultivo do arroz negro na região vem sendo acompanhado desde as primeiras avaliações realizadas nas safras 2017/2018, nos municípios de Italva e Laje do Muriaé. Entre os materiais testados, estava a SCS 120 Onix, cultivar de arroz de pericarpo preto que apresentou boa adaptação às condições locais. Também foi avaliada a cultivar BRS 902, de pericarpo vermelho.
Segundo o pesquisador da Pesagro-Rio Silvino Amorim Neto, que estuda o cultivo de arroz há mais de cinco décadas, as duas cultivares apresentaram produtividade média superior a 4 toneladas por hectare nos sistemas avaliados.
“As duas cultivares se adaptaram muito bem às condições edafoclimáticas nas regiões Norte e Noroeste Fluminense, com produtividades médias acima de 4 t/ha, no sistema produtivo.”
Um grão que já tem seu mercado
O arroz negro já ocupa espaço próprio entre consumidores que buscam produtos diferenciados e, principalmente, na alta gastronomia. Seu aspecto, textura e características próprias fazem com que seja utilizado em preparações como risotos e outros pratos presentes em restaurantes especializados.
Na região de Italva, segundo Silvino, o produto é comercializado atualmente por cerca de R$ 50 o quilo, enquanto o arroz vermelho chega a aproximadamente R$ 40.
O grão também é comercializado em feiras agropecuárias, cooperativas, restaurantes e na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF).
Esse mercado específico ajuda a explicar o valor diferenciado alcançado pelo produto. Para Silvino, “o arroz negro, pelo alto valor de mercado, agrega valor ao sistema produtivo da agricultura familiar, aumentando o faturamento do produtor.”
A demanda cresce, mas a produção tem seus desafios
A experiência da agricultora Benise Freitas, da Fazenda da Penha, em Formosia, Italva, mostra de forma concreta como essa demanda vem aumentando.
Recentemente, uma empresa de São Paulo procurou Benise interessada em adquirir duas toneladas de arroz negro. A agricultora, entretanto, não conseguiu atender ao pedido porque sua produção já estava toda planejada para o ano.
Para ela, o episódio também evidencia um dos principais desafios enfrentados atualmente por quem produz na zona rural: a carência de mão de obra qualificada.
“A gente reclama muito disso, dessa questão da mão de obra, principalmente mão de obra qualificada, porque hoje as pessoas não têm. Na zona rural, para você trabalhar, para você produzir com qualidade, você tem que contar com a ajuda da família e dos amigos que gostam de produzir”.
Benise explica que, na sua propriedade, a opção é por um sistema de produção que não utiliza produtos químicos para o controle do mato e não emprega adubação química.
“A gente abre mão disso tudo, a gente quer um produto de qualidade. Tanto é que o nosso arroz não tem adição de nada de química, não tem adubo nenhum, não tem nada. Graças a Deus, nossa terra é muito boa, nós temos muita água, mas é assim que a gente produz.”
Para a agricultora, esse modelo exige mais trabalho e torna a disponibilidade de pessoas preparadas ainda mais importante.
“Hoje, há carência de mão de obra, principalmente para o produtor rural, que é o mais afetado de todos. Não que os outros segmentos não tenham essa carência, mas nós, na zona rural, temos uma carência muito maior, infelizmente.”
A experiência da Fazenda da Penha mostra, assim, um dos desafios de um mercado em expansão: há compradores interessados e demanda por volumes maiores, mas o aumento da produção depende também da disponibilidade de mão de obra qualificada e da capacidade de manter o padrão de cultivo adotado pela propriedade.
Uma história de família
Na Fazenda da Penha, o arroz é mais do que um cultivo. É parte de uma história familiar iniciada pelos pais de Benise, Benedito e Enedina.
Benise e Antônio Carlos mantêm hoje a produção de arroz negro e vermelho na propriedade. O cultivo do arroz negro começou há mais de oito anos, depois de um encontro com a Pesagro-Rio e a Emater de Italva.
“Esse é o arroz preto gourmet que nós produzimos há mais de oito anos. Pegamos a semente com a Pesagro e estamos produzindo. Ele é um arroz rico em fibras, tem vitaminas, é antioxidante e é um produto maravilhoso, com o qual você pode criar pratos totalmente diferentes. Pode fazer bolos, panquecas, bolinhos e também usar na alimentação diária. Além de tudo isso, é um arroz que tem muitos nutrientes favoráveis à nossa saúde.”
Na propriedade, o produto é comercializado em feiras e também chega à gastronomia local. A experiência da família mostra como uma cultura pode atender a diferentes mercados, desde o consumo doméstico até preparações gastronômicas mais elaboradas.
Características do grão
A coloração escura do arroz negro está relacionada à presença de antocianinas, compostos bioativos pertencentes ao grupo dos flavonoides. Estudos científicos também identificam no grão fibras alimentares, vitaminas, minerais e compostos fenólicos.
Dados do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) referentes à cultivar IAC 600 registraram 9,71% de proteína bruta e 2,02% de fibras. Na comparação apresentada pelo instituto, o arroz integral apresentou 7,04% de proteína e 1,42% de fibras.A composição pode variar de acordo com a cultivar e as condições de produção. Essas características, associadas à aparência e às possibilidades de utilização, contribuem para o interesse do consumidor e para a presença do arroz negro em mercados especializados.
Da pesquisa ao campo
O trabalho com a cultura do arroz prosseguiu ao longo dos anos. Na safra 2020/2021, atividades foram realizadas com 35 produtores rurais do Noroeste Fluminense. No Centro Estadual de Pesquisa em Agroenergia e Aproveitamento de Resíduos, em Campos dos Goytacazes, foram avaliadas 13 cultivares e linhagens de arroz irrigado por meio dos estudos do pesquisador Silvino.
Entre os materiais avaliados estava novamente a SCS 120 Onix, de pericarpo preto, ao lado da BRS 902, de pericarpo vermelho, e de variedades tradicionais.Mais recentemente, uma nova cultivar de pericarpo preto foi incorporada aos testes. Segundo Silvino, a BRAS-705, proveniente do CNPAF-Embrapa, apresentou produtividade superior a 5 toneladas por hectare no sistema irrigado durante a safra 2025/2026.
Os resultados dos trabalhos realizados até o momento indicam a possibilidade de alcançar produtividades superiores a 6 toneladas por hectare com as tecnologias disponíveis, segundo o pesquisador.
Na safra 2026/2027, a produtora Benise de Freitas deverá ampliar a área cultivada com arroz negro, de acordo com Silvino.
O vermelho também faz parte dessa história. Embora o arroz negro seja o destaque pelo valor de mercado e pela demanda crescente, o arroz vermelho também integra os trabalhos realizados na região.
A BRS 902 foi uma das cultivares avaliadas nos experimentos iniciados em 2017/2018. Assim como o arroz negro, o vermelho passou a ser cultivado por produtores e comercializado em mercados específicos.
Os dois materiais fazem parte de um conjunto de alternativas para diversificação da produção de arroz e exploração de nichos de mercado, especialmente entre agricultores familiares.
No caso do arroz negro, a combinação entre mercado já estabelecido, preço diferenciado e demanda crescente coloca novos desafios para a produção. A experiência de agricultores como Benise mostra que há compradores interessados, inclusive fora do estado, mas também evidencia a necessidade de planejamento e de mão de obra preparada para ampliar o cultivo.