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Austrália caminha para 3º recorde seguido nas exportações de carne bovina e aumenta disputa com Brasil por EUA e Ásia

A Austrália deve consolidar em 2026 o terceiro recorde consecutivo nas exportações de carne bovina, mantendo uma oferta elevada no mercado internacional justamente em um momento em que o Brasil também busca ampliar sua presença nos principais destinos globais. O cenário coloca os dois países em competição mais direta, principalmente nos Estados Unidos e nos mercados asiáticos, e indica que a pressão australiana não deverá desaparecer em 2027.

Os números fazem parte de análise elaborada por Geraldo Isoldi, da Terra Investimentos/Terra Agro Insights, com base no relatório Livestock and Products Annual do USDA/FAS , divulgado nesta última segunda-feira (28).

Para o pecuarista brasileiro, a principal leitura é que, embora a Austrália comece a apresentar sinais de ajuste em seu ciclo pecuário, a redução da oferta será gradual. Isso significa que um dos principais concorrentes do Brasil continuará colocando volumes expressivos de carne no mercado mundial. 

Segundo os dados compilados por Isoldi, a produção australiana de carne bovina deverá alcançar 2,99 milhões de toneladas equivalente-carcaça em 2026, crescimento de 3,6% sobre as 2,89 milhões de toneladas de 2025. As exportações devem avançar ainda mais: alta de 4,6%, de 2,21 milhões para 2,31 milhões de toneladas, estabelecendo novo recorde.

O abate também deverá atingir um recorde, chegando a 10,03 milhões de cabeças, 3,4% acima das 9,69 milhões de 2025.

Os números mais recentes representam inclusive uma revisão para cima das projeções anteriores do USDA. No início do ano, o FAS ( Foreign Agricultural Service ), o Serviço Agrícola Estrangeiro do USDA trabalhava com uma produção australiana menor em 2026, enquanto já apontava a elevada disponibilidade de animais e a forte demanda internacional como fatores de sustentação da produção. 

O ponto de atenção aparece na composição dos abates australianos já que a participação de fêmeas é elevada e acende sinal sobre oferta futura.

Segundo dados da Australian Bureau of Statistics (ABS), o órgão oficial de estatísticas do país, as fêmeas representaram 54,1% do abate de animais adultos no primeiro semestre, bem acima do patamar histórico de aproximadamente 47% utilizado como referência para indicar retração do rebanho.

Normalmente, uma participação tão elevada indicaria uma fase clara de liquidação de matrizes e, consequentemente, menor disponibilidade de animais nos anos seguintes. Mas o movimento australiano apresenta uma particularidade.

Segundo a análise da Terra, ganhos reprodutivos decorrentes de genética, manejo e condições favoráveis de chuva têm permitido que o rebanho permaneça próximo de 29 milhões de cabeças, apesar do elevado descarte de fêmeas.

O estoque final, estimado em 29,54 milhões de cabeças em 2025, deve recuar para 29,16 milhões em 2026 e chegar a 28,86 milhões em 2027. Há, portanto, contração, mas não uma liquidação suficientemente rápida para retirar a Austrália do mercado internacional no curto prazo.

É justamente aí que está um ponto importante para o Brasil,  a Austrália continuará exportando muita carne em 2027

O USDA/FAS projeta redução de 1,7% no abate australiano, para 9,85 milhões de cabeças.

A produção deverá cair 2,2%, para 2,93 milhões de toneladas, enquanto as exportações recuariam 3%, chegando a 2,24 milhões de toneladas. Mesmo com a queda, seria, segundo o levantamento, o segundo maior volume exportado da história australiana.

Ou seja, o início de uma redução do rebanho não deve produzir escassez imediata de carne australiana.

É uma diferença importante para a leitura do mercado: Austrália pode ter passado pelo pico do atual ciclo de expansão sem, contudo, deixar de representar forte concorrência internacional.

Estados Unidos como mercado importante

O mercado americano é particularmente importante para compreender a disputa entre Austrália e Brasil. Nos primeiros seis meses de 2026, os Estados Unidos responderam por 29,4% das exportações australianas, acima dos 27,9% registrados em 2025 e dos 24,7% de 2024. A razão é conhecida: o rebanho bovino americano permanece historicamente reduzido e a indústria dos EUA necessita importar carne magra para complementar sua produção e abastecer principalmente a fabricação de hambúrgueres.

É exatamente nesse segmento que Brasil e Austrália podem disputar espaço.

O relatório da Terra Investimentos destaca que a ampliação temporária da cota americana em 300 mil toneladas até 30 de novembro de 2026 beneficia os chamados “outros países”. A Austrália possui cota própria e, portanto, não acessa diretamente esse volume adicional.

Na avaliação apresentada por Isoldi, a medida pode melhorar a competitividade relativa da carne brasileira nos EUA e desacelerar moderadamente os embarques australianos de carne para processamento.

Para o Brasil, portanto, a menor disponibilidade de gado americano continua sendo uma oportunidade comercial relevante no curto prazo.

China pode mudar a disputa a partir de 2027

Se os Estados Unidos representam uma oportunidade para o Brasil, a China é o ponto que merece maior atenção.

A salvaguarda chinesa sobre a carne bovina estabeleceu cotas específicas por país e uma tarifa adicional de 55% para os volumes que ultrapassarem os limites determinados.  A Austrália recebeu uma cota de aproximadamente 205 mil toneladas para 2026. Segundo o levantamento da Terra, esse volume foi esgotado em 18 de junho.

Desde 20 de junho, portanto, os embarques adicionais australianos passaram a enfrentar a tarifa adicional.

O impacto aparece na distribuição das vendas. Entre janeiro e junho deste ano, a China respondeu por 18,1% das exportações australianas, atrás dos Estados Unidos, com 29,4%, Coreia do Sul, com 16,8%, e Japão, com 14,9%.

A expectativa do FAS é de que frigoríficos australianos preparem embarques antecipadamente para aproveitar a reabertura da cota chinesa em 1º de janeiro de 2027.

Como o limite será ligeiramente maior no próximo ano, existe a possibilidade de uma corrida australiana para ocupar rapidamente esse espaço.

As salvaguardas adotadas por Pequim atingiram os principais fornecedores e alteraram a dinâmica de competição no maior mercado importador mundial de carne bovina. A consequência é que a disputa deixa de ser apenas por preço e passa a envolver também a capacidade de cada exportador administrar sua cota e redirecionar excedentes para outros mercados.

Se a Austrália atingir rapidamente seu limite chinês, parte dessa carne precisará procurar destinos alternativos. EUA, Japão e Coreia do Sul são candidatos naturais — justamente mercados nos quais o Brasil também tenta ampliar participação.

Por outro lado, enquanto a carne australiana estiver penalizada pela tarifa adicional na China, abre-se uma janela relativa para concorrentes que ainda disponham de espaço comercial naquele mercado.

Divergência com USDA sugere que oferta pode ser ainda maior

Outro detalhe destacado por Geraldo Isoldi merece acompanhamento. As estimativas do adido agrícola americano para a Austrália estão acima dos números oficiais do próprio USDA em cerca de 140 mil toneladas na produção e 150 mil toneladas nas exportações em 2026.

Para a Terra Investimentos, essa diferença pode antecipar uma futura revisão para cima dos números oficiais americanos.

Se isso ocorrer, o mercado internacional poderá estar lidando com uma disponibilidade australiana ainda maior do que atualmente considerada nos balanços globais.

O balanço apresentado pela Terra mostra uma Austrália ainda extremamente competitiva.

Em 2027, haverá algum recuo no abate, na produção, nas exportações e no tamanho do rebanho. Mas os números projetados não apontam para uma retirada relevante do país do comércio mundial.

Para o Brasil, o curto prazo ainda oferece oportunidades, principalmente nos Estados Unidos, onde a escassez de gado mantém elevada a necessidade de importação e a ampliação temporária da cota favorece a competitividade brasileira.

Mas a atenção maior estará na virada para 2027, com a reabertura das cotas chinesas promovendo uma nova corrida entre fornecedores para ocupar espaço no principal mercado importador mundial. Ao mesmo tempo, a Austrália chegará ao novo ano ainda com grande disponibilidade de carne para exportação.

Para o pecuarista brasileiro, portanto, acompanhar o ciclo australiano deixou de ser uma discussão distante. O volume que sai dos frigoríficos australianos ajuda a determinar onde haverá concorrência, quanto os importadores estarão dispostos a pagar e, em última instância, qual será o espaço para valorização da carne brasileira no mercado internacional.

*Com auxílio de IA

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