O início da cobrança da sobretaxa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros acendeu um sinal de alerta no principal polo de fruticultura irrigada do país. Entre as frutas, a uva ficou fora da lista de isenções divulgada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), elevando para 35% a tarifa incidente sobre o produto brasileiro e aumentando a preocupação de produtores e exportadores do Vale do São Francisco.
A decisão, que começou a valer nessa quarta-feira (22), atinge diretamente uma das cadeias mais importantes do agronegócio nacional. O Vale do São Francisco responde por cerca de 75% da produção brasileira de uvas e por aproximadamente 95% das exportações nacionais da fruta. Segundo a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), cerca de 99% da uva brasileira exportada para os Estados Unidos é produzida em Petrolina (PE), tornando a região a mais impactada pelas novas barreiras comerciais.
Além da uva, melão e melancia também passaram a sofrer a sobretaxa, afetando produtores de estados como Pernambuco, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí. No entanto, entidades do setor avaliam que o impacto sobre essas culturas tende a ser menor devido ao menor volume destinado ao mercado norte-americano.
Embora os Estados Unidos não sejam o principal destino da uva brasileira em volume, o mercado é considerado estratégico pela alta rentabilidade oferecida aos exportadores. A exclusão da fruta da lista de exceções preocupa justamente por atingir um produto de elevado valor agregado, às vésperas da principal janela de embarques do segundo semestre.
Segundo levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), cerca de 36,5% das exportações do agronegócio brasileiro para os Estados Unidos passarão a ser atingidas pela tarifa adicional de 25%, enquanto 63,5% permanecem protegidas pela ampliação da lista de exceções.
Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) mostram que a uva é a cadeia mais relevante entre as frutas que ficaram de fora das isenções. O centro de pesquisa observa que os embarques para os Estados Unidos já vinham perdendo competitividade desde a rodada anterior de tarifas, enquanto a Europa consolidava sua posição como principal destino da fruta brasileira.
As estatísticas do comércio exterior evidenciam esse movimento. Em 2024, os Estados Unidos importaram aproximadamente 13,8 mil toneladas de uva brasileira, movimentando cerca de US$ 41,5 milhões. Já em 2025, os embarques recuaram para pouco mais de 4 mil toneladas, com faturamento de aproximadamente US$ 12,8 milhões. No mesmo período, a Argentina ampliou significativamente sua participação como destino da fruta brasileira, passando de cerca de 3,6 mil toneladas para mais de 8 mil toneladas importadas, favorecida pela proximidade geográfica e pelo menor custo logístico.
Produtores temem impactos na safra
A preocupação aumenta porque a entrada em vigor da tarifa ocorre justamente às vésperas da principal temporada de exportações da fruticultura irrigada do Nordeste. A janela de embarques do segundo semestre é considerada decisiva para o faturamento anual dos produtores e para a manutenção dos investimentos nas lavouras.
A Abrafrutas avalia que os produtores do Vale do São Francisco e também da região de Mossoró (RN) estão entre os mais afetados pelas novas medidas. Segundo a associação, apesar das dificuldades, o setor continuará atendendo o mercado norte-americano enquanto trabalha para ampliar a presença em outros destinos internacionais.
A entidade também vem colaborando com o Governo Federal, fornecendo informações sobre o desempenho das exportações brasileiras de frutas para subsidiar as negociações diplomáticas com os Estados Unidos. Paralelamente, intensificou o diálogo com mercados como União Europeia, China, Coreia do Sul e outros países asiáticos, buscando reduzir a dependência das vendas ao mercado americano.
Mesmo diante do novo cenário, o setor acredita que ainda há espaço para uma solução negociada antes do início do pico das exportações, previsto para os próximos meses. Enquanto isso, produtores revisam contratos, reavaliam estratégias comerciais e acompanham com cautela as negociações entre os dois países.
Para a advogada especialista em comércio internacional e direito tributário Anna Dolores Sá Malta, a nova tarifa amplia um cenário de insegurança justamente quando os exportadores se preparam para a principal janela de embarques do segundo semestre. “A elevação da tarifa para 35% reduz significativamente a competitividade da uva brasileira no mercado americano. Ainda que os Estados Unidos já viessem perdendo participação nas exportações da fruta, trata-se de um mercado estratégico pela rentabilidade. Esse cenário exige atenção redobrada dos produtores, revisão dos contratos internacionais e aceleração da busca por novos mercados para reduzir a dependência de um único destino”, afirma
Empregos e economia regional em risco
A preocupação é ainda maior porque a fruticultura irrigada representa uma das principais atividades econômicas do semiárido nordestino. De acordo com o Sindicato dos Produtores Rurais de Petrolina (SPR), a produção de uvas gera cerca de 70 mil empregos diretos e indiretos na região, sendo aproximadamente metade da mão de obra composta por mulheres. Além do campo, a atividade movimenta toda a cadeia logística, de embalagens, transporte, armazenagem e serviços ligados às exportações.
Para Anna Dolores, além das estratégias comerciais adotadas pelas empresas, será fundamental fortalecer a atuação diplomática entre Brasil e Estados Unidos para minimizar os efeitos da medida sobre o setor. “Além das estratégias comerciais adotadas pelas empresas, é fundamental que o governo brasileiro mantenha o diálogo internacional para buscar alternativas que restabeleçam condições mais equilibradas de acesso ao mercado norte-americano. Quanto mais tempo a tarifa permanecer em vigor, maior tende a ser o impacto sobre investimentos, geração de renda e planejamento das exportações”, destaca.
A avaliação da especialista converge com a estratégia adotada pela Abrafrutas, que vem ampliando negociações para abrir novos mercados consumidores. Para a entidade, a diversificação das exportações será essencial para reduzir a dependência dos Estados Unidos e preservar a competitividade da fruticultura brasileira.
A associação mantém orientação permanente aos produtores e exportadores sobre os desdobramentos da nova política tarifária. Entre as medidas discutidas estão a revisão das estratégias comerciais, a diversificação dos mercados compradores e ações para garantir o escoamento da produção, minimizando os impactos sobre a cadeia produtiva. No caso da uva brasileira, um dos principais produtos exportados para o mercado norte-americano, a elevação da tarifa total para 35% traz novos desafios para toda a cadeia produtiva, exigindo adaptações comerciais e logísticas.
Embora melão e melancia também tenham sido incluídos na nova taxação, a própria entidade avalia que o impacto tende a ser menor devido ao perfil das exportações dessas frutas para os Estados Unidos. No caso da uva, porém, o efeito é mais sensível por envolver uma cadeia consolidada, altamente dependente da logística internacional e com grande peso econômico para o Vale do São Francisco.
Apesar das incertezas, o setor mantém a expectativa de que uma solução negociada possa ser construída antes de setembro, quando começa a principal temporada de embarques de frutas da região para os Estados Unidos. Até lá, produtores acompanham as negociações com cautela, conscientes de que a manutenção da tarifa poderá afetar não apenas as exportações, mas também novos investimentos, geração de empregos e a competitividade de uma das principais atividades econômicas do semiárido brasileiro.
Outros setores também são afetados
A uva não é o único produto brasileiro atingido pela nova política comercial norte-americana. Também ficaram fora da lista de exceções itens como etanol, calçados, vestuário, pedras ornamentais e açúcar orgânico, ampliando os efeitos do tarifaço sobre diferentes cadeias produtivas.
No caso do etanol, representantes da indústria norte-americana defenderam a manutenção da sobretaxa durante audiência pública, alegando perda de competitividade frente ao produto brasileiro. Já os pedidos de isenção apresentados pelos setores de calçados, vestuário e pedras ornamentais foram rejeitados pelo USTR sob o argumento de que esses produtos podem ser adquiridos de fornecedores de outros países.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), aproximadamente 18% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano deverão ser afetadas pelas novas medidas tarifárias. No primeiro semestre de 2026, o Brasil registrou déficit comercial de US$ 1,5 bilhão na relação com os Estados Unidos, importando mais do que exportou, mesmo com a redução do fluxo comercial bilateral observada desde o ano passado.
No Nordeste, além da fruticultura irrigada, setores como o sucroenergético, a indústria calçadista e a produção de pedras ornamentais acompanham com preocupação os desdobramentos da medida, diante do risco de perda de competitividade, redução de investimentos e impactos sobre a geração de empregos.