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A mosca-branca deve permanecer entre os principais pontos de atenção dos produtores de algodão na safra 2026/27. A adaptação da praga aos sistemas produtivos, especialmente à sucessão entre soja e algodão, e a possibilidade de condições climáticas favoráveis à sua multiplicação elevam a preocupação com perdas de produtividade e, principalmente, com impactos sobre a qualidade da fibra.
Durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão (CBA), em Belo Horizonte/MG, especialistas ouvidos pelo Notícias Agrícolas convergiram na avaliação de que a mosca-branca vem ganhando importância dentro do sistema produtivo e pode exigir atenção redobrada na próxima temporada.
Para Dyogo Fonseca, gerente de Desenvolvimento de Mercado da BASF Soluções para a Agricultura, temperaturas mais elevadas podem reduzir o ciclo da praga e aumentar sua pressão ao longo da safra. “A mosca-branca vem se tornando mais relevante a cada ano e, em anos mais secos, passa a ter extrema importância dentro do sistema do algodão”, afirmou.
A preocupação vai além da perda direta de produtividade. A mosca-branca excreta substâncias açucaradas que provocam pegajosidade na pluma e favorecem o desenvolvimento de fumagina, comprometendo a qualidade comercial do algodão.
Segundo Fonseca, análises preliminares da produção da safra 2025/26 já indicam crescimento da ocorrência de pegajosidade. O tamanho final do problema, porém, ainda não está consolidado, já que parte do algodão segue em processo de beneficiamento e amostras continuam sendo avaliadas em laboratório.
“Ainda seria muito preliminar falar em porcentagem, mas vimos crescimento e isso hoje é uma grande preocupação do mercado e do produtor de algodão”, destacou. Fonseca acrescentou que índices elevados de pegajosidade podem dificultar o processamento pela indústria têxtil e provocar deságio na comercialização. Segundo ele, o setor já registrou relatos de devolução de cargas por conta do problema.
Praga deixou de ser apenas sazonal
A mudança no comportamento da mosca-branca dentro do sistema produtivo também foi destacada por Erick Cancian, gerente de Portfólio de Inseticidas da Bayer. Segundo ele, a praga está hoje bem adaptada à soja, ao algodão e a outros cultivos e deixou de aparecer apenas em safras pontualmente favoráveis.
“Ela se estabeleceu e não é mais sazonal. É uma praga presente no sistema; o que muda são os níveis de pressão”, afirmou.
Na avaliação de Cancian, além da permanência da mosca-branca no ambiente produtivo, os níveis de pressão observados ao longo dos anos não têm retornado aos patamares anteriores. O especialista relaciona esse avanço à adaptação da praga aos diferentes cultivos e também às condições climáticas.
Temperaturas mais elevadas e períodos de veranico podem encurtar o ciclo da mosca-branca, permitindo que mais gerações se desenvolvam dentro de uma mesma safra e aumentando o número de indivíduos presentes nas lavouras. Diante desse cenário, Cancian avalia que a temporada 2026/27 pode representar um desafio maior para o controle da praga.
No algodão, o risco ganha peso adicional pelo impacto sobre a qualidade da fibra. Segundo o executivo, a pluma brasileira vem ampliando sua reputação junto ao mercado externo nos últimos anos, e a mosca-branca pode comprometer justamente um dos atributos que ajudaram o país a ganhar espaço entre os compradores internacionais.
“Manter a qualidade da fibra é fundamental”, afirmou Cancian ao destacar que a preocupação envolve tanto evitar perdas produtivas quanto preservar o padrão comercial alcançado pelo algodão brasileiro.
A mesma preocupação apareceu na avaliação de Leandro Bessa, diretor de Portfólio da Syngenta Proteção de Cultivos. Para ele, condições climáticas mais favoráveis à praga podem elevar sua incidência acima dos níveis habituais e exigir ajustes de manejo ao longo da safra.
As fontes também destacaram a importância do monitoramento e das ações preventivas. Para Fonseca, quando a população da mosca-branca já alcança níveis elevados dentro da lavoura, parte do dano à fibra pode estar instalada.
Mosca-branca não é o único desafio
Apesar do destaque dado à mosca-branca, outros problemas fitossanitários permanecem no radar dos produtores para 2026/27. Bessa cita entre as principais preocupações bicudo, tripes e ácaros, além de doenças como mancha-alvo e ramulária e do avanço de plantas daninhas resistentes, especialmente caruru e capim-pé-de-galinha.
Na avaliação do executivo da Syngenta, dois fatores ajudam a explicar a crescente complexidade desse cenário: as condições da agricultura tropical e a intensificação dos sistemas produtivos. Com sucessões como soja seguida de algodão, diferentes pragas, doenças e plantas daninhas conseguem permanecer no ambiente de cultivo e passar a representar problemas para mais de uma cultura.
“Você pega o principal sistema de cultivo, que é soja seguida de algodão. Então temos um sistema em que pragas, doenças e plantas daninhas permanecem nesse ambiente”, explicou Bessa.
O bicudo, citado novamente entre os desafios, já apresentou pressão elevada na última temporada em Mato Grosso. O índice B.A.S. do IMAmt chegou a 10,22 bicudos por armadilha por semana em 2025/26, maior nível da série de monitoramento do instituto.
Com diferentes pragas, doenças e plantas daninhas permanecendo no sistema ao longo do ano, o cenário reforça a importância de um planejamento fitossanitário que considere a integração entre culturas e o monitoramento contínuo das áreas.