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Alta do dólar não chega na mesma proporção aos preços da soja e do milho no Brasil

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais, em 25 de outubro, mudou a percepção do mercado sobre o cenário fiscal brasileiro e provocou uma forte reação no câmbio. Entre os dias 23 e 30, o dólar avançou 9,2%, mas a valorização não chegou na mesma proporção aos preços dos grãos. A soja disponível em Paranaguá subiu 4,3%, enquanto o milho teve reação ainda mais limitada, pressionado pela oferta e pelas condições do mercado interno.

Na soja, a queda das cotações na Bolsa de Chicago e dos prêmios de exportação reduziu parte do efeito positivo do câmbio. No período, o contrato de janeiro de 2027 em Chicago recuou 2,7%, enquanto o preço FOB em Paranaguá caiu 1,6% em dólares. Com isso, mesmo diante da valorização da moeda americana, o ganho para a soja no porto ficou abaixo da metade da alta do dólar.

Os prêmios de exportação também recuaram no início da semana, em um movimento de proteção das tradings diante da instabilidade cambial. Parte dessa queda, porém, foi recuperada até sexta-feira. A oferta mais restrita ajudou a conter novas perdas, já que muitos produtores, com uma parcela significativa da safra já negociada, optaram por segurar o produto.

Para Yedda Monteiro, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, o comportamento dos preços mostra que a valorização cambial precisa ser analisada em conjunto com os demais fatores que influenciam o mercado. “O dólar subiu, mas Chicago e os prêmios caminharam na direção contrária. Por isso, o produtor não sentiu no preço da soja todo o ganho da moeda americana. É importante entender como cada um desses componentes se comporta antes de tomar uma decisão de venda”, afirma.

Milho segue condicionado ao mercado interno

No mercado de milho, o efeito do câmbio foi ainda menor. Os contratos com vencimento em 2027 na B3 praticamente não avançaram durante a semana, e o indicador Cepea apresentou reação apenas nos últimos dias do período.

O cereal brasileiro continua pouco influenciado pela paridade de exportação. Com o avanço da colheita americana, os Estados Unidos têm maior disponibilidade de milho a preços competitivos, o que reduz o espaço para o produto brasileiro no mercado internacional. Nesse cenário, a alta do dólar não foi suficiente para estimular uma reação mais consistente das cotações.

Internamente, a oferta da safrinha e o abastecimento dos consumidores também limitam os preços. A expectativa é de retomada das compras a partir de dezembro, o que pode trazer mudanças ao ritmo das negociações.

“O milho tem uma dinâmica diferente da soja neste momento. O preço está muito mais ligado à oferta disponível no Brasil e ao comportamento da demanda interna. Enquanto os consumidores estiverem abastecidos e houver milho americano competitivo, o câmbio terá pouca força para impulsionar as cotações”, avalia Yedda.

Câmbio passa a ser ponto de atenção para a próxima safra

Se no mercado disponível o efeito da alta do dólar foi limitado, para a soja da safra 2026/27 a mudança foi mais significativa. Considerando os contratos futuros de Chicago, os prêmios de cada mês e o dólar futuro correspondente, os preços estimados no porto avançaram perto de 6% em reais. Em dólares, porém, houve recuo entre 2% e 3%.

A reação do mercado após a eleição também se refletiu na curva do dólar futuro, que subiu em todos os vencimentos, inclusive nos meses de março a julho de 2027, período em que a próxima safra será comercializada. A avaliação da Biond Agro é que a moeda americana pode se acomodar entre R$5,20 e R$5,40, em patamar superior ao registrado antes da eleição. A trajetória, no entanto, dependerá dos sinais da política econômica e das primeiras medidas do governo reeleito.

Diante desse cenário, a orientação é aproveitar momentos de maior valorização para fixar o câmbio em lotes, por meio de contratos futuros na B3 ou de operações com tradings, sem antecipar a negociação dos prêmios de exportação enquanto o mercado estiver pressionado.

A demanda chinesa e o ritmo de comercialização dos produtores brasileiros devem influenciar o comportamento dos prêmios nas próximas semanas. Se a China mantiver as compras do Brasil e a oferta não aumentar significativamente, os valores podem encontrar sustentação. Uma concentração de vendas, por outro lado, pode provocar novas quedas.

“Para quem ainda tem soja da próxima safra sem preço fixado, o câmbio oferece uma oportunidade de proteção. Mas não é necessário negociar tudo de uma vez. A estratégia é aproveitar os momentos de alta para fixar o dólar e acompanhar a evolução de Chicago e dos prêmios antes de fechar o restante da operação”, conclui Yedda Monteiro.

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