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Donald Trump e Xi Jinping ainda nem sentaram à mesa, mas Estados Unidos e China já começam a movimentar suas peças antes de um dos encontros mais importantes do calendário econômico e geopolítico deste ano.
O presidente norte-americano e o líder chinês têm encontro previsto para a próxima quinta-feira, 24 de setembro, em Washington. Será a segunda reunião presencial entre os dois em 2026, depois da visita de Trump a Pequim, em maio, e a primeira visita de Xi à Casa Branca em cerca de uma década. Xi esteve nos Estados Unidos em 2023, para a cúpula da APEC em São Francisco, portanto o intervalo histórico se refere especificamente à Casa Branca — e não à presença do líder chinês em território norte-americano.
A dimensão do encontro vai muito além do comércio. Na mesa estão a trégua tarifária entre as duas maiores economias do mundo, tecnologia e inteligência artificial, minerais críticos, Taiwan, as relações chinesas com o Irã, energia e, naturalmente, agricultura. E os movimentos feitos nos últimos dias sugerem que Washington e Pequim trabalham para preparar o terreno.
Nesta sexta-feira (18), informações da agência internacional de notícias Bloomberg indicaram que o governo dos Estados Unidos deverá adiar até depois do encontro Trump-Xi o anúncio de novas tarifas relacionadas ao que Washington classifica como excesso de capacidade produtiva de seus parceiros comerciais. Um relatório que seria divulgado antes da reunião poderia recomendar uma tarifa adicional de 7,5% sobre produtos chineses. O motivo do adiamento não foi oficialmente informado e a alíquota final também permanece indefinida.
Do outro lado, outro sinal chamou a atenção dos mercados nesta sexta. O yuan offshore avançou a 6,6957 por dólar, seu nível mais forte desde julho de 2022, depois de o Banco Popular da China fortalecer sua taxa de referência pela oitava sessão consecutiva. O movimento ocorre às vésperas da reunião em Washington e acrescenta mais uma variável à relação comercial entre os dois países.
Os preparativos também acontecem nos bastidores. Washington e Pequim trabalham na formação de uma delegação de empresários chineses que poderá acompanhar Xi, com nomes de grandes companhias de setores como veículos elétricos, baterias, tecnologia, bancos e agronegócio entre os considerados. A lista ainda não está fechada e deverá depender também das conversas deste fim de semana entre o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, e o vice-premiê chinês He Lifeng.
Há, porém, uma cautela importante. Embora Trump tenha anunciado a reunião para o dia 24 e Washington trabalhe nos preparativos, o governo chinês ainda não havia confirmado publicamente o encontro de forma explícita até quinta-feira. Em conversa com o secretário de Estado Marco Rubio, o chanceler chinês Wang Yi afirmou que os dois países deveriam preparar a próxima etapa das interações de alto nível, sem mencionar diretamente a reunião Trump-Xi.
SOJA É PEQUENA NO TABULEIRO, MAS ENORME PARA O AGRO
É justamente aí que o agronegócio entra em uma negociação muito maior. “No caso da soja, ela é um temperinho dessa coisa que é muito maior. Ela faz parte do que está se discutindo”, afirma Eduardo Vanin, sênior agriculture strategist da Marex, em entrevista ao Notícias Agrícolas. Em sua avaliação, um eventual pacote comercial teria de envolver produtos relevantes na pauta de importações chinesas. “Se olharmos o leque de importações que a China faz dos produtos americanos, não daria para tirar a soja. Teria que ter energia, por exemplo, petróleo, gás e soja”, explica.
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A frase resume bem o tamanho relativo da oleaginosa diante de temas como Taiwan, Irã, tecnologia, inteligência artificial e minerais críticos. Para o mercado agrícola, entretanto, esse “temperinho” pode ter consequências importantes sobre preços, fluxos comerciais e a disputa entre Estados Unidos e Brasil pela demanda chinesa.
Agricultura está entre as áreas nas quais há maior possibilidade de avanço. O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou neste mês que poderão ocorrer anúncios relacionados à agricultura e a barreiras não tarifárias. Além da soja, milho e sorgo aparecem entre os produtos que podem entrar nas discussões.
A China se comprometeu, segundo a Casa Branca, a comprar 25 milhões de toneladas de soja norte-americana por ano até 2028 após o encontro de Trump e Xi no ano passado. Pequim nunca reconheceu publicamente esse compromisso nos mesmos termos, embora as compras realizadas até aqui estejam caminhando na direção do volume informado pelos Estados Unidos.
A nação asiática já teria, inclusive, adquirido quase a metade deste e volume e permanece bastante ativa no mercado norte-americano. Somente na semana passada, compradores chineses fecharam cerca de 1 milhão de toneladas de soja dos EUA. E a possibilidade de novos compromissos agrícolas ganha relevância justamente em um momento no qual a demanda chinesa voltou a ocupar o centro das atenções em Chicago.
Para Cristiano Palavro, diretor da Pátria Agronegócios, uma ampliação dos compromissos chineses de compra poderia encontrar os Estados Unidos em uma situação bastante diferente do ponto de vista da disponibilidade. “Os Estados Unidos não têm soja para se comprometer a exportar tanto assim a mais para a China […] Se a China comprar mais cinco milhões [de toneladas], seria explosivo para o mercado. O mercado pode reagir muito no curto prazo a isso, olhando para Chicago”, afirma, também em entrevista ao Notícias nesta quinta-feira (17).
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Apesar disso, Palavro não interpreta necessariamente uma eventual ampliação das compras chinesas nos Estados Unidos como negativa para o Brasil. “Não vejo com preocupação para o lado do Brasil, porque a demanda está muito ajustada à oferta. O Brasil pode perder demanda da China e vai ganhar demanda de outros locais, até porque são eles os dois grandes fornecedores”, diz.
E há ainda o efeito Chicago: “A soja americana se valorizando, ela carrega a gente junto. […] Chicago subindo é bom para nós também, não dá para negar.” Isso torna a equação mais complexa do que simplesmente calcular quantas toneladas a China poderá comprar de cada origem. Para o produtor brasileiro, será necessário acompanhar quanto a China poderá se comprometer a comprar, em que prazo, quais tarifas poderão ser reduzidas e, principalmente, como Chicago e os prêmios brasileiros responderão a uma eventual mudança dos fluxos comerciais.
IRÃ, TAIWAN, E ENERGIA AMPLIAM TAMANHO DA NEGOCIAÇÃO
Vanin chama atenção ainda para o fato de que o contexto do encontro de setembro é diferente daquele que cercava negociações anteriores entre Trump e Xi. Na avaliação do analista, o relacionamento da China com o Irã ganhou peso nas conversas, ao lado de Taiwan, tecnologia e comércio. “O encontro é de interesse dos dois lados. Só que o valor das fichas subiu bastante em relação à pendenga que nós tivemos no ano passado”, afirma. Para ele, soja, petróleo e gás podem integrar uma eventual composição comercial entre Washington e Pequim. “Não há como pressionar a China a fazer coisas que não interessam a ela, a não ser que tenha uma bela moeda de troca”, diz Vanin.
Energia também poderá fazer parte das negociações comerciais. As compras chinesas de petróleo e gás norte-americanos foram interrompidas depois da imposição de tarifas, e uma redução recíproca de tarifas que vem sendo discutida poderia abrir caminho para a retomada desses fluxos.
MUITO MAIS QUE SOJA, MAS COM A SOJA NO RADAR
É justamente essa mistura que transforma a reunião da próxima semana em um evento relevante para os mercados agrícolas.
Trump e Xi chegam ao encontro diante de interesses que atravessam segurança, tecnologia, energia, comércio e influência geopolítica. Washington quer ampliar o acesso a minerais críticos e as vendas de produtos norte-americanos; Pequim busca alívio em tarifas e restrições tecnológicas. Agricultura aparece como uma área na qual concessões são consideradas politicamente e economicamente mais viáveis do que em temas estratégicos como chips, Taiwan ou inteligência artificial.
Para a soja, a pergunta é mais objetiva: haverá novas compras, redução de tarifas ou algum novo compromisso agrícola entre China e Estados Unidos? Para o produtor brasileiro, há uma segunda pergunta, talvez ainda mais importante: o que uma nova configuração dessa relação fará com Chicago, com os prêmios e com o preço recebido no Brasil? É por isso que, embora a soja seja apenas uma peça de um tabuleiro muito maior, o encontro entre Trump e Xi na próxima semana começa a ser negociado pelo mercado antes mesmo do primeiro aperto de mãos.