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O Brasil encerrou o ano comercial 2025/26 com um recorde de 3,37 milhões de toneladas de algodão exportadas entre agosto de 2025 e julho de 2026, volume 19% superior ao do ciclo anterior e mais que o dobro das 1,45 milhão de toneladas embarcadas quatro anos antes. A consolidação do país na liderança mundial, porém, abre uma nova pergunta para a cadeia justamente quando o setor trabalha com a possibilidade de voltar a ampliar a área plantada em 2026/27: depois de ganhar espaço dos concorrentes, de onde virá o próximo crescimento das exportações brasileiras?
A resposta discutida durante o Congresso Brasileiro do Algodão, em Belo Horizonte/MG, passa por mais de uma frente. O Brasil ainda encontra mercados onde pode ampliar participação e novas portas continuam sendo abertas, mas representantes da cadeia avaliam que sustentar o crescimento no longo prazo também exigirá aumentar a própria demanda mundial por algodão, especialmente na disputa com as fibras sintéticas. Ao mesmo tempo, qualidade, rastreabilidade e relacionamento com a indústria aparecem cada vez mais como ferramentas para que o país não apenas aumente os volumes comercializados, mas consiga capturar mais valor pela fibra que entrega.
Na avaliação do CEO da Agroconsult, André Pessoa, um dos diferenciais construídos pelo Brasil foi justamente deixar de ser um fornecedor concentrado em determinados períodos e passar a disponibilizar volumes relevantes ao mercado internacional durante praticamente todos os meses do ano. Segundo ele, enquanto Estados Unidos e Austrália ainda apresentam sazonalidade mais marcada em suas exportações, a oferta brasileira ganhou constância à medida que cresceram produção e capacidade logística, permitindo ao país ocupar os principais mercados consumidores.
Para o presidente da SLC Agrícola, Aurélio Pavinato, essa mudança já ultrapassou uma condição meramente conjuntural. Ele associa a posição brasileira ao ganho de produtividade, à possibilidade de produzir duas safras no mesmo ano, à eficiência do sistema produtivo e à capacidade de fornecer algodão de forma contínua.
“A mudança é estrutural. O Brasil está conquistando o mercado internacional em consequência da nossa alta eficiência produtiva e do nosso sistema de produção. A condição de fazer duas safras e ter alta produtividade é o que garante essa competitividade e a possibilidade de ofertar algodão 12 meses por ano. O cliente quer segurança de suprimento constante”, afirmou Pavinato. Na leitura do executivo, enquanto a produção e o consumo mundiais pouco avançaram em uma perspectiva de aproximadamente duas décadas, o Brasil ampliou fortemente sua produção e ocupou participação antes pertencente a outros fornecedores.
Depois de conquistar mercado, onde está o próximo crescimento?
O tamanho da presença brasileira já aparece no principal destino da pluma nacional. A China comprou 770,5 mil toneladas no ano comercial 2025/26, aproximadamente 23% de tudo o que o Brasil exportou no período. Mais do que a concentração em um grande comprador, porém, a estratégia da cadeia vem passando pela diversificação entre diferentes indústrias têxteis da Ásia e de outros mercados, algo que reduz a dependência de um único destino e abre novas possibilidades de crescimento.
A Índia exemplifica a velocidade com que um mercado pode ganhar importância. O país recebeu mais de 350 mil toneladas de algodão brasileiro em 2025/26, volume mais de 40 vezes superior ao registrado dois anos antes. Dados divulgados pela Abrapa indicam que o Brasil passou a responder por cerca de 40% das importações indianas da fibra, mesmo com a Índia figurando entre os maiores produtores mundiais de algodão.
O presidente da Abrapa, Gustavo Piccoli, cita justamente a Índia como demonstração de que ainda há espaço para ampliar a presença brasileira. Para ele, a evolução das exportações e a diversificação dos destinos dão confiança à cadeia para trabalhar com eventual aumento da produção nos próximos ciclos, desde que o país preserve produtividade, custos competitivos e qualidade. A avaliação da entidade é de que produzir mais exigirá continuar aprofundando relações comerciais nos mercados em que o Brasil já está presente e, simultaneamente, avançar sobre novos destinos.
A abertura de mercados entra nessa estratégia como uma frente complementar. Durante o Congresso, o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, destacou o trabalho governamental para ampliar o acesso de produtos brasileiros e citou o Egito entre os exemplos relacionados ao algodão. O mercado egípcio foi aberto para a pluma brasileira em 2023 e, em análise publicada posteriormente, o próprio Ministério da Agricultura apontou qualidade e preços competitivos do produto brasileiro e potencial para conquistar participação em um mercado tradicionalmente abastecido por fornecedores como Grécia e Sudão.
A conquista de novos compradores, no entanto, não ocorre em um ambiente de competição passiva. Pessoa chama atenção para a reação dos Estados Unidos diante da perda de participação no mercado internacional. Segundo o CEO da Agroconsult, a política comercial americana passou a fazer parte dessa disputa, inclusive por meio de negociações de acesso de produtos têxteis ao mercado dos EUA associadas à preferência pela utilização do algodão norte-americano. Na avaliação dele, portanto, o Brasil terá de defender sua posição ao mesmo tempo em que tenta ampliá-la.
Esse esforço ganha ainda mais importância porque a ampliação da produção brasileira precisa encontrar escoamento principalmente fora do país. Francisco Queiroz, analista do Itaú BBA, destaca que o consumo doméstico não tem avançado no mesmo ritmo da capacidade produtiva e, por isso, as exportações são fundamentais para absorver o excedente. Na leitura do banco, mercados como China, Vietnã, Bangladesh e Índia continuarão tendo papel relevante na diversificação das vendas brasileiras.
A relação entre produção e demanda externa também conecta diretamente a discussão das exportações às perspectivas para a safra 2026/27. Se as projeções de recuperação da área plantada se confirmarem e a produtividade permanecer elevada, o crescimento potencial da oferta acrescentará ainda mais importância à capacidade de encontrar compradores. A questão, portanto, deixa de ser apenas quanto algodão o Brasil é capaz de produzir e passa também por quanto mercado consegue conquistar ou criar para essa produção.
Para crescer mais, basta tirar espaço dos concorrentes?
O ganho de participação sobre outros exportadores foi decisivo para a ascensão brasileira, mas representantes da cadeia começam a olhar para uma segunda etapa: ampliar o tamanho do próprio mercado mundial de algodão. A discussão aparece justamente porque a expansão brasileira das últimas décadas ocorreu em um ambiente no qual, segundo Pavinato, consumo e produção mundiais tiveram crescimento muito menor do que o observado na oferta brasileira.
Para 2026/27, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projeta alguma recuperação da demanda. O consumo industrial mundial é estimado em 122,9 milhões de fardos, alta de 1,5% sobre o ciclo anterior e maior nível em seis anos, enquanto a produção global é projetada em 117,3 milhões de fardos. A diferença indica um ciclo em que o consumo tende a superar a produção, mas não elimina a discussão estrutural sobre como ampliar de forma mais consistente a utilização do algodão no longo prazo.
É nesse ponto que a concorrência muda de escala. Em vez de enxergar somente Estados Unidos, Austrália ou outros exportadores como adversários comerciais, participantes da mesa-redonda do Congresso colocaram as fibras sintéticas, particularmente o poliéster, como uma disputa comum aos produtores de algodão.
“O grande recado é que precisamos aumentar o share do algodão em relação ao sintético, não importa a origem”, afirmou o vice-presidente da Abrapa e diretor do CCAB Agro, Alexandre de Marco. Pavinato seguiu na mesma direção ao sustentar que, nessa frente, países produtores deixam de ser propriamente concorrentes entre si e passam a ter no poliéster o principal competidor pela demanda da indústria têxtil.
Segundo o presidente da SLC Agrícola, essa discussão já levou entidades do setor a avaliar iniciativas conjuntas para estimular o consumo mundial da fibra natural e aproximar a cadeia produtiva da indústria, inclusive no desenvolvimento de soluções que aumentem a utilização do algodão em diferentes composições têxteis. Na visão de Pavinato, se a demanda mundial conseguir crescer, o Brasil aparece como um dos países mais preparados para responder com aumento de oferta.
A geopolítica acrescenta uma camada contraditória a essa competição. Pessoa explica que a valorização do petróleo tende a encarecer o poliéster, produzido a partir de matéria-prima de origem fóssil, e melhora a competitividade relativa do algodão. Ao mesmo tempo, a alta de petróleo e gás aumenta o custo energético de importantes polos têxteis e pode comprometer a atividade industrial justamente em países compradores da fibra, como Bangladesh e Paquistão. Assim, um movimento capaz de favorecer o algodão frente ao sintético também pode reduzir a capacidade de consumo de determinadas indústrias.
Alessandra Zanotto Costa, presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), também enxerga os dois lados desse ambiente. Segundo ela, o encarecimento do petróleo pode pressionar custos de produção e a matriz energética dos países consumidores, mas simultaneamente reduz a vantagem relativa da fibra sintética. Para a dirigente, esse cenário reforça a necessidade de diversificar compradores e aprofundar o conhecimento sobre aquilo que a indústria realmente deseja receber.
Queiroz, do Itaú BBA, acrescenta que a demanda por algodão não depende apenas da relação de preços com o poliéster. Crescimento econômico, comportamento do consumo e capacidade operacional da indústria têxtil nos grandes mercados também entram nessa equação. Dessa forma, aumentar a participação do algodão frente às fibras sintéticas exige não apenas competitividade da matéria-prima, mas uma indústria capaz de processá-la e consumidores dispostos a absorver os produtos finais.
Depois de ganhar volume, como ganhar valor?
A discussão sobre o próximo estágio das exportações brasileiras não termina no tamanho do mercado. Depois de conquistar participação e ganhar escala, representantes da cadeia apontam também a necessidade de reduzir a diferença de remuneração ainda observada em relação a algumas origens concorrentes e transformar a evolução da qualidade brasileira em maior reconhecimento comercial.
Alessandra coloca transparência sobre a qualidade entregue e avanços na infraestrutura e na logística entre os pontos necessários para essa mudança. A presidente da Abapa também defende uma espécie de “rastreabilidade inversa”: além de mostrar ao comprador de onde veio e como foi produzido o algodão, fazer a informação percorrer o caminho contrário, trazendo para o produtor aquilo que a indústria têxtil busca em características da fibra e do fio.
“Temos a oportunidade de entender melhor o que a indústria e o cliente final realmente querem em termos de qualidade e características do fio. É uma rastreabilidade inversa, uma informação que retorna para que possamos produzir variedades específicas e atender exatamente a essa demanda”, afirmou.
Nesse contexto, a rastreabilidade deixa de funcionar apenas como ferramenta de comprovação de origem ou sustentabilidade e passa a fazer parte da estratégia comercial. Piccoli associa os sistemas de rastreamento e certificação à construção de confiança e credibilidade junto aos compradores. Pavinato acrescenta que maior relacionamento direto com as fiações e utilização dos dados produzidos em laboratório podem ajudar a reduzir avaliações subjetivas da fibra e aproximar o algodão brasileiro dos padrões de remuneração observados entre concorrentes.
Para o presidente da SLC Agrícola, porém, essa evolução também depende de continuar aprimorando características do próprio produto. Entre os pontos citados por ele estão o índice de fibras curtas e o stickiness, ou pegajosidade da pluma. Na avaliação de Pavinato, avanços nesses parâmetros, combinados com rastreabilidade, transparência e relacionamento com a indústria, podem contribuir para diminuir a diferença de prêmio em relação ao algodão norte-americano.
De Marco segue na mesma direção ao defender que o Brasil precisa avançar na negociação comercial e utilizar de forma mais efetiva os dados de qualidade produzidos pela cadeia para demonstrar aos compradores as características da fibra nacional. A avaliação do vice-presidente da Abrapa é de que a evolução observada na produção brasileira ainda precisa ser convertida integralmente em percepção e remuneração no mercado internacional.
Essa exigência feita na ponta compradora começa a interferir em decisões tomadas muito antes de o algodão chegar ao porto. Jeferson Andrade, Gestor Comercial da Polato Sementes, afirma que qualidade da fibra tem peso crescente na escolha genética e que os novos materiais vêm buscando responder às exigências do mercado externo.
“A qualidade da fibra é outro ponto muito importante. O mercado está cada ano mais exigente, e os materiais novos têm trazido uma melhora nessa qualidade para atender ao padrão que o mercado internacional busca”, destacou Andrade.
Preservar essa qualidade também significa proteger a posição já conquistada. Dyogo Fonseca, Gerente de Desenvolvimento de Mercado da BASF Soluções para a Agricultura, relacionou a maior pressão de mosca-branca observada nas lavouras ao risco de aumento de pegajosidade na fibra, problema capaz de dificultar o processamento industrial e afetar sua qualidade comercial. Erick Cancian, Gerente de Portfólio de Inseticidas da Bayer, também destacou que problemas desse tipo podem ultrapassar os limites da fazenda e atingir a percepção sobre a qualidade e a reputação do algodão brasileiro no mercado externo.
A preocupação mostra como as diferentes etapas dessa nova fase estão conectadas. Ampliar produção exige mais demanda; aumentar demanda exige competitividade frente a outras fibras e novos compradores; conquistar mercados exige constância de oferta, qualidade e confiança; e transformar essa presença comercial em maior valor passa também pela capacidade de entregar ao cliente informações rastreáveis e uma fibra que corresponda às características prometidas.
Depois de construir escala suficiente para assumir a liderança mundial e mais que dobrar suas exportações em quatro anos comerciais, o desafio brasileiro deixa, portanto, de ser medido apenas pelo volume que sai dos portos. Nas avaliações reunidas durante o Congresso, sustentar o crescimento passa por continuar ocupando espaço dos concorrentes, transformar novas aberturas em mercados efetivos, ampliar a participação do algodão diante das fibras sintéticas e utilizar qualidade e rastreabilidade como ferramentas para disputar maior valor.
A próxima etapa da expansão brasileira, assim, poderá ser medida não apenas por quantas toneladas adicionais o país consegue colocar no exterior, mas também pelo tamanho do mercado que ajuda a construir para a fibra e pelo valor que consegue capturar em cada tonelada vendida.