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Propriedade de Mato Grosso do Sul cria oito espécies de peixes com uso reduzido de ração

Produzir peixe com uma fração da ração normalmente usada em sistemas comerciais já seria suficiente para chamar atenção. Em Glória de Dourados (MS), a experiência da Estância Colorada vai além: reúne oito espécies no mesmo sistema, aproveita água da chuva captada dos telhados das granjas de suínos e destina o excedente hídrico à irrigação de pastagens da bovinocultura de corte. Ainda em fase experimental, o projeto de piscicultura já abastece o refeitório da propriedade e começa a desenhar uma nova frente de faturamento no campo.

Em entrevista exclusiva ao jornal O Presente Rural, o produtor rural Celso Philippi Junior detalhou a lógica do modelo implantado na fazenda, que integra piscicultura, suinocultura, bovinocultura de corte e produção de energia renovável. A proposta não nasceu como um tanque isolado dentro da propriedade, mas como parte de um plano mais amplo de sustentabilidade.

“Quando começamos a estruturar esse projeto da Estância Colorada, em paralelo fizemos um desenho de sustentabilidade da propriedade envolvendo a integração entre suinocultura, bovinocultura de corte, piscicultura e produção de energia renovável por meio das florestas.”

Uma das bases do sistema está no aproveitamento da água da chuva. Segundo Philippi, a propriedade canaliza a água captada de telhados das granjas de suínos e de outras estruturas para duas cisternas revestidas. É nesse ambiente que a produção de peixes foi organizada.

“São 17.000 m² de telhado, onde canalizamos a água da chuva para duas cisternas revestidas. Nesses tanques nós produzimos oito espécies de peixes que se complementam dentro de uma pirâmide de produção.”

Arranjo

O sistema foi montado com espécies que ocupam funções diferentes dentro do tanque. Quatro atuam como filtradoras, três entram como predadoras e uma faz o aproveitamento do material depositado no fundo. A lógica, segundo o produtor, é explorar a dinâmica natural da água e reduzir a dependência de insumos externos.

“São quatro espécies de peixes filtradores, ou seja, vivem da filtragem da água, que são a tilápia, a carpa húngara, a carpa cabeça grande e a carpa colorida. A equipe técnica do Senar-MS vem todo mês aqui, me dá assistência técnica e gerencial, analisa a água para saber a quantidade de matéria orgânica, que basicamente são algas. Como nós não fizemos despesca total, essas quatro espécies se multiplicam muito, principalmente a tilápia. Então colocamos três espécies de peixes predadores: dourado, matrinxã e pintado. O alimento deles são os alevinos. Já temos matrinxã e dourado com mais de 3 kg no açude. E por fim tem o corimba, que come todo aquele resíduo que vai para o fundo do tanque. As espécies vivem em equilíbrio, sincronizadas.”

A alimentação externa existe, mas em volume muito abaixo do padrão de uma criação convencional. Segundo Philippi, a ração é usada especialmente para tilápias, para os alevinos e também na engorda, além de ajudar no manejo durante a retirada dos peixes. “O volume de ração que a gente oferece representa entre 10 e 20% da ração usada em uma criação comercial. É possível criar sem dar a ração, mas a gente usa até para facilitar na hora de fazer a despesca, que é feita com tarrafa.”

Baixo custo e destino da produção

O tanque também chama atenção pelo isolamento em relação ao solo. As cisternas são revestidas com lona, sem contato direto da água com a terra. Na avaliação do produtor, isso influencia a qualidade do pescado.

“O tanque é revestido por uma lona PAD, polietileno de alta densidade, a mesma usada em revestimentos de tanques de dejetos suínos, então a água não tem contato com a terra. O sabor do peixe é um espetáculo.”

Mesmo com a presença de um aerador, o custo operacional permanece baixo, justamente porque o sistema não depende de grandes volumes de ração. “Temos um aerador, mas o custo é baixo porque a gente trabalha com o mínimo de ração.”

Embora a experiência ainda não tenha finalidade comercial, os peixes já têm uso definido dentro da propriedade. A despesca é feita regularmente para fornecer a proteína para 200 refeições por mês. “Não temos esse tanque para fins comerciais, por isso não faço despesca total. Vamos tirando peixe para abastecer o refeitório e também para lazer.” Hoje, o peixe entra no cardápio do refeitório da Estância Colorada uma vez por semana. Na última despesca, realizada em 15 de abril, foram retirados 60 quilos de pescado.

Da chuva ao pasto

A lógica de aproveitamento não termina no tanque. Depois de passar pelo sistema de criação, a água segue para outro elo da propriedade, conectando a piscicultura à bovinocultura de corte. “No final, o destino dessa água é a irrigação de pastagens para a bovinocultura de corte.”

O excedente hídrico, portanto, não é tratado como descarte, mas como insumo. Essa integração ajuda a explicar por que a experiência chama atenção mesmo ainda em fase de amadurecimento técnico: ela reúne produção de peixe, uso racional da água e conexão com outras atividades da fazenda em uma mesma engrenagem.

Na prática, a Estância Colorada ainda trabalha em escala experimental. Mas o projeto já oferece sinais concretos do que pode vir pela frente. Com peixe no refeitório, despesca em andamento e custo mais contido com alimentação, a piscicultura deixa de ser apenas um ensaio técnico e começa a ganhar contorno de negócio. Em Glória de Dourados, a aposta não está em um tanque comum. Está em transformar integração produtiva em receita.

A versão digital do jornal de Aquicultura é gratuita e pode ser acessada na íntegra clicando aqui. Boa leitura!

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