A ameaça de um novo episódio de El Niño com intensidade severa colocou o setor produtivo brasileiro em alerta máximo para o ciclo de soja. Um estudo detalhado conduzido pela Serasa Experian aponta que a repetição de um cenário climático desfavorável pode retirar 17,6 milhões de toneladas do mercado em relação a um período de neutralidade climática, representando uma retração próxima de 10% no volume colhido. No âmbito financeiro, o valor de produção potencialmente impactado atinge a expressiva marca de R$ 33 bilhões.
![]()
A base de cálculo da projeção levou em consideração a safra 2023/24, marco recente de um El Niño de grandes proporções. Naquela ocasião, a produtividade média brasileira caiu para 3.282 quilos por hectare, patamar 9% inferior aos 3.682 quilos por hectare obtidos no ciclo posterior, que transcorreu sob condições neutras segundo a Conab. Mesmo com uma área plantada estimada em expansão para 49,9 milhões de hectares, o crescimento no campo não assegura volumes recordes de colheita, justamente em razão da vulnerabilidade às chuvas irregulares e secas prolongadas.
O comportamento do tempo reforça o abismo produtivo entre as regiões do país. Enquanto o Sul tende a receber precipitações abundantes, o Centro-Oeste sofre com forte restrição hídrica. Estados como Mato Grosso e Goiás respondem por 80% das perdas apontadas no cenário de estresse. Somente o território mato-grossense corre o risco de perder 9,7 milhões de toneladas, o que equivale a 18,9% da sua produção. Já no Rio Grande do Sul, a previsão climatológica indica incremento de 5,5 milhões de toneladas, avanço de 33% em relação a períodos penalizados por secas históricas.
A especialista em inteligência de dados da Serasa Experian, Jeysa Meneses, Gerente de Soluções e Parcerias, frisou durante evento com o mercado que a análise territorial deve descer ao detalhe da gestão de cada propriedade para entender a real vulnerabilidade ao clima.
“O que a gente demonstra não é o que vai acontecer cravado em pedra, mas sim um dimensionamento de risco. A gente tem uma visão sobre o território, sabe o que acontece sobre ele quando dá um evento climático, mas a gente deve analisar caso a caso”, explicou Jeysa, ao lembrar que práticas como plantio direto, rotação de culturas e uso de cultivares adaptadas diminuem as perdas em locais castigados pela estiagem.
A preocupação com o bolso do agricultor e o risco de crédito abriu espaço para discussões sobre ferramentas práticas de gestão e mitigação de vulnerabilidades. Historicamente, o acesso à orientação técnica especializada no campo atinge apenas cerca de 20% das propriedades brasileiras, patamar que cai para 18% na agricultura familiar, ampliando o desamparo perante eventos extremos de clima.
Para suprir essa lacuna e blindar o agronegócio de prejuízos econômicos e barreiras de mercado, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) anunciou avanços no Agroplus, programa de assistência técnica gratuita que já atende quase 6 mil fazendas em 14 estados do país, cobrindo 7,4 milhões de hectares de soja. A iniciativa conta agora com um terceiro pilar oficial dedicado a carbono e clima, somando 20 novos indicadores de verificação às tradicionais avaliações socioambientais e de construções rurais. A meta é estruturar práticas agrícolas regenerativas e modelos de baixo carbono para que as propriedades enfrentem o estresse climático e cumpram exigências internacionais de rastreabilidade, a exemplo do regulamento europeu contra o desmatamento.
Gerente de sustentabilidade da Abiove e responsável pela liderança do Agroplus, Pedro Garcia sustentou que a governança no campo é a principal chave para a resiliência agronômica e a rentabilidade do agricultor perante cenários incertos.
“Quando o produtor se adequa a esses critérios socioambientais, ele consegue garantir o acesso ao mercado que garante o vetor financeiro do investimento dele e também, aplicando as recomendações de boas práticas agrícolas, ele consegue aumentar a produtividade dele, porque ele avança na resiliência da produção, o que gera um retorno maior para ele”, declarou Pedro Garcia.
A associação também prepara a publicação formal das Diretrizes do Agroplus, reunindo uma lista de 250 indicadores técnicos alinhados a protocolos globais de certificação e com validação do Ministério da Agricultura e Pecuária dentro do programa de Boas Práticas Agrícolas. Diante da iminência do El Niño, o cruzamento de monitoramento espacial apurado com extensão rural contínua desponta como a única rota possível para proteger as lavouras, evitar a inadimplência e sustentar o fluxo de exportações da soja brasileira.
Confira demais detalhes do estudo: